Leia tudo que a Camila Sosa Villada escrever
A escritora que ocupa mais lugar aqui em casa
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O primeiro livro que li da Camila Sosa Villada foi “Las malas” (”O parque das irmãs magníficas” em português). Estava participando de um clube de literatura queer que uma amiga organizava e fiquei intrigada pelo título, pela capa e pela perspectiva de discutir minhas impressões com um grupo de desconhecidas (era a primeira vez que participava de um clube do livro). Como bem sabemos, as primeiras vezes são inesquecíveis e com a Camila não foi diferente.
Pelo título dessa newsletter você já deve imaginar que não só fiquei completamente obcecada com “Las malas”, como também me tornei fã de carteirinha da escritora. Hoje, na biblioteca compacta que tenho em casa, a Camila é a autora que ocupa mais espaço na prateleira: 5 livros em total, entre novelas, contos, reflexões e poemas. Posso confirmar por experiência própria que nada que sai da caneta dessa mulher consegue ser ruim e hoje venho trazer a palavra de Camila Sosa Villada pra você.
“Todo recuerdo espera ser escrito. Una vive su vida con ánimo de escribir. Pero, en ese sentido, la escritura va muy por detrás de la memoria, es imposible alcanzar la velocidad de la memoria y mucho más alcanzarla mientras se escribe. Los pensamientos son veloces, demasiado veloces para este oficio que sigue teniendo el tiempo de una letra detrás de otra, una palabra dando la mano a otra, el ritmo de una mujer cansada.” (“El viaje inútil”, Camila Sosa Villada)
“Toda memória espera ser escrita. Vivemos a vida com vontade de escrever. Mas, nesse sentido, a escrita vai muito atrás da memória, é impossível alcançar a velocidade da memória e muito mais alcançá-la enquanto se escreve. Os pensamentos são velozes, velozes demais para este ofício que continua tendo o tempo de uma letra atrás da outra, uma palavra dando a mão a outra, o ritmo de uma mulher cansada.” (tradução livre)
Comecemos com “Las malas”, uma história emocionante e autobiográfica de uma travesti que descobre o amor e o ódio na cidade de Córdoba, Argentina. Tocando temas complexos como a prostituição, o preconceito e a misoginia, Camila narra a história “de conto de fadas e de terror” que foi a sua própria vida no processo de descobrir-se adulta e travesti, e entender o mundo terrível e maravilhoso que a esperava. Na obra, as histórias da protagonista e suas amigas, e a comunidade que criam para se proteger e amar quando quase ninguém mais fazia, é uma das demonstrações de amizade mais singelas e verdadeiras que já vi.
Com pitadas de realismo mágico que deixam tudo ainda mais belo e por vezes triste, “Las malas” me fez rir e chorar, e continua sendo o meu preferido da autora. Inclusive, é o livro dela que tenho autografado! Tive o privilégio de escutar a Camila e falar com ela por alguns segundos durante um evento literário aqui em Montevidéu. Grande conquista da minha skin leitora!
O segundo livro da autora que conheci foi “La novia de Sandro” (”A namorada de Sandro”), seu primeiro livro publicado há mais de 10 anos. Se trata de uma coletânea de relatos curtos e poemas, quase todos sobre o amor (ou a falta dele). “El viaje inútil” (”A viagem inútil”) foi o próximo da lista, um livrinho curto que descobri por acaso em um sebo. Nessa obra, conhecemos mais sobre as origens de Camila, sobre seus pais e sua relação conturbada entre eles e com ela, a menina que os desafiou e levou todas as suas concepções de certo e errado ao limite.
“Soy una tonta por quererte” (”Sou uma tola por te querer”) veio em seguida, com seus contos protagonizados pelos personagens mais variados: uma freira, uma namorada de aluguel, uma travesti, e por aí vai. Pedaços da autora ou de pessoas que cruzaram seu caminho, vozes diversas que falam sobre o amor, a vida, as desilusões, o medo e o prazer.
O último livro que li e que já virou até filme foi “Tesis sobre una domesticación” (”Tese sobre uma domesticação”), romance que relata um pedaço da vida de uma atriz no auge da fama e esplendor. Meio vilã, meio mocinha, nos aprofundamos nas paixões e contradições dessa protagonista encantadora que me deixou pensando em uma Camila mais madura, com novas marcas e experiências, mas sempre a mesma fúria e desejo de ser vista e amada.
A escrita de Camila é mágica. A forma como cria cada frase, cada descrição, seja de uma paisagem ou de um sentimento, flui como música. Parece que escorrega pra dentro da gente e faz aquele estrago gostoso. Suas personagens são sempre multifacéticas, humanas, reais. O ser trans e travesti está sempre presente em sua escrita, de uma forma cuidada e com uma naturalidade que nos aproxima e nos faz mais conscientes do que enfrenta essa comunidade. Mais do que uma ativista, Camila é uma contadora de histórias que busca dar voz ao que ela e outros como ela pensam, sentem e vivem.
Além de ler seus livros, escutá-la também é um deleite. A mulher é tão boa falando quanto escrevendo! Camila costura as palavras e vai tecendo histórias que descolocam, que fazem rir, que sempre, sempre mexem com quem escuta. Nessa entrevista que deu ao podcast argentino La Cruda, você pode entender do que estou falando.
“El cielo de las travestis debe ser hermoso como los paisajes deslumbrantes del recuerdo, un lugar donde pasar la eternidad sin aburrirse.” (“Las Malas” Camila Sosa Villada)
“O céu das travestis deve ser tão bonito quanto as paisagens deslumbrantes das lembranças, um lugar onde passar a eternidade sem se entediar.” (tradução livre)
Você conhece a Camila? Qual é o seu livro preferido?
Tô doidinha pra ler sua última publicação, “La traición de mi lengua”. A coleção aqui em casa não vai parar de crescer tão cedo…
Leitura da vez:
“A era do pensamento mágico: Notas sobre a irracionalidade moderna”, de Amanda Montell. Descobri essa belezinha na Feira do Livro de Montevidéu há umas semanas e estou gostando muito. Conheço a autora do podcast “Sounds like a cult”, um programa que fala sobre os cultos modernos com muito bom humor, desde as Swifties até o movimento antivacina. Com certeza esse livrinho vai vir aqui pra news quando termine.






Nossa, amiga, seu texto encheu minha lista de novos títulos kkkkkkkkkk socorro!
Nunca li nada da Camila, acredita? Está há um tempão na lista, mas ainda não comprei. Você falou de tantos aqui que já não sei por qual começar 😅😅😅
Regi, me diste ganas de seguir leyendo más libros de Camila (me gustó mucho Las malas, y estoy con El viaje inútil). Y no sabía de la película, la voy a buscar... Me hiciste acordar de que vi a Camila en el teatro, hace más de una década, en Córdoba.